segunda-feira, 3 de julho de 2017

1490 (do abjecto) - Tisanas

"Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come."
HATHERLY, Ana, 351 Tisanas. Lisboa: Quimera (1997)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

1489 (do que somos feitos) Acontecer

Acontecer

Rasgo as ondas
risco o vento
trago um mar revolto
um rombo
no meu peito.

Raspo as asas no lençol de estrelas
de uma noite branca.

Sei que um dia destes
hei
de acontecer.

José Fanha

terça-feira, 27 de junho de 2017

1488 (do amor) - Endechas a Barbara escrava

Endechas a Barbara escrava 

A üa cativa com quem andava d´amores na Índia chamada bárbora

Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo,
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa,
 que em suaves molhos,
que para meus olhos,
 fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas,
me parecem belas,
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
 mas não de matar.

üa graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora,
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
 onde o povo vão
perde opinião,
que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura,
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha:
bem parece estranha,
mas bárbara não.

Presença serena,
que a tormenta amansa:
nela enfim descansa,
toda a minha pena.
Esta é a cativa,
que me tem cativo,
e, pois nela vivo,
é força que viva

Luís de Camões 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

1487 (da condição humana) - Travessia do Deserto

Travessia do deserto 

Que caminho tão longo!
Que viagem tão comprida!
Que deserto tão grande
Sem fronteira nem medida!

Águas do pensamento
Vinde regar o sustento
Da minha vida.

Este peso calado
Queima o sol por trás do monte
Queima o tempo parado
Queima o rio com a ponte.

Águas dos meus cansaços
Semeai os meus passos
Como uma fonte.

Ai que sede tão funda!
Ai que fome tão antiga!
Quantas noites se perdem
No amor de cada espiga!

Ventre calmo da terra
Leva-me na tua guerra
Se és minha amiga.

José Mário Branco 

quinta-feira, 1 de junho de 2017

1846 (do espanto de existir) Pára-me de repente o Pensamento ...

SONETO

Pára-me de repente o Pensamento ...
- Como que de repente refreado 
Na Douda Correria em que levado ...
- Anda em busca da paz, do esquecimento... 

Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado 
Ante um Abismo... ante seus pés rasgado...
Pára... e Fica... e Demora-se um Momento...

Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora 

E Mergulha na Noite, Escura e Fria 
Um olhar d'Aço que na Noute explora... 

- Mas a Espora da dor seu flanco estria...

- E Ele Galga... e Prossegue... sob a Espora!

Ângelo de Lima
"Poesias Completas, Assírio e Alvim, 1991, p. 55

quarta-feira, 10 de maio de 2017

1845 (do abjeto) - Ese General

Ese General
-Aquí está el general.
¿Qué quiere el general?
-Una espada desea el general.
-Ya no existen espadas, general.
¿Qué quiere el general?
-Un caballo desea el general.
-Ya no existen caballos, general.
¿Qué quiere el general?
-Otra batalla quiere el general.
-Ya no existen batallas, general.
¿Qué quiere el general?
-Una amante desea el general.
-Ya no existen amantes, general.
¿Qué quiere el general?
-Un gran tonel de vino desea el general.
-Ya no hay tonel ni vino, general.
¿Qué quiere el general?
-Un buen trozo de carne desea el general.
-Ya no existen ganados, general.
¿Qué quiere el general?
-Comer yerbas desea el general.
-Ya no existen los pastos, general.
¿Qué quiere el general?
-Beber agua desea el general.
-Ya no existe más agua, general.
¿Qué quiere el general?
-Dormir en Una cama desea el general.
-Ya no hay cama ni sueño, general.
¿Qué quiere el general?
-Perderse por la tierra, desea el general.
-Ya no existe la tierra, general.
¿Qué quiere el general?
-Morirse como Un perro desea el general.
-Ya no existen los perros, general.
¿Qué quiere el general?
¿Qué quiere el general?
Parece que está mudo el general.
Parece que no existe el general.
Parece que se ha muerto el general,
que ya, ni como un perro, se ha muerto el general,
que el mundo destruido, ya sin el general,
va a empezar nuevamente, sin ese general.

(El matador, (Poemas escénicos), 1965)
Rafael Alberti 

domingo, 7 de maio de 2017

1844 - (dos livros) - Um livro

Um livro

Levou-me um livro em viagem
não sei por onde é que andei
Corri o Alasca, o deserto
andei com o sultão no Brunei?
P’ra falar verdade, não sei
Com um livro cruzei o mar,
não sei com quem naveguei.
Com marinheiros, corsários,
tremendo de febres e medo?
P’ra falar verdade não sei.
Um livro levou-me p’ra longe
não sei por onde é que andei.
Por cidades devastadas
no meio da fome e da guerra?
P’ra falar verdade não sei.
Um livro levou-me com ele
até ao coração de alguém
E aí me enamorei –
de uns olhos ou de uns cabelos?
P’ra falar verdade não sei.
Um livro num passe de mágica
tocou-me com o seu feitiço:
Deu-me a paz e deu-me a guerra,
mostrou-me as faces do homem
– porque um livro é tudo isso.
Levou-me um livro com ele
pelo mundo a passear
Não me perdi nem me achei
– porque um livro é afinal…
um pouco da vida, bem sei.

João Pedro Mésseder