segunda-feira, 26 de março de 2018

1870 (do amor) . Intercidades

INTERCIDADES
 
galopamos pelas costas dos montes no interior
da terra a comer eucaliptos a comer os entulhos de feno
a cuspir o vento a cuspir o tempo a cuspir
o tempo
o tempo que os comboios do sentido contrário engolem
do sentido contrário roubam-nos o tempo meu amor
 
preciso de ti que vens voando
até mim
mas voas à vela sobre o mar
e tens espaço asas por isso vogas à deriva enquanto eu
vou rastejando ao teu encontro sobre os carris faiscando
ocasionalmente e escrevo para ti meu amor
a enganar a tua ausência a claustrofobia de cortinas
cor de mostarda tu caminhas sobre a água e agora
eu sei
as palavras valem menos do que os barcos
 
preciso de ti meu amor nesta solidão neste desamparo
de cortinas espessas que impedem o sol que me impedem
de voar e ainda assim do outro lado
o céu exibe nuvens pequeninas carneirinhos a trotar
a trotar sobre searas de aveia e trigais aqui não há
comemos eucaliptos eucaliptos e igrejas caiadas
debruçadas sobre os apeadeiros igrejas caiadas
meu amor
eu fumo um cigarro entre duas paragens leio
o Lobo Antunes e penso as pessoas são tristes as 
pessoas são tão tristes as pessoas são patéticas meu
amor ainda bem que tu me escondes do mundo me escondes
dos sorrisos condescendentes do mundo da comiseração
do mundo
à noite no teu corpo meu amor eu
também sou um barco sentada sobre o teu ventre
sou um mastro
 
preciso de ti meu amor estou cansada dói-me
em volta dos olhos tenho vontade de chorar mesmo assim
desejo-te mas antes antes de me tocares de dizeres quero-te
meu amor hás-de deixar-me dormir cem anos
depois de cem anos voltaremos a ser barcos
eu estou só
Portugal nunca mais acaba comemos eucaliptos
eucaliptos intermináveis longos e verdes
comemos eucaliptos entremeados de arbustos
comemos eucaliptos a dor da tua ausência meu amor
comemos este calor e os caminhos de ferro e a angústia
a deflagrar combustão no livro do Lobo Antunes
comemos eucaliptos e Portugal nunca mais acaba Portugal
é enorme eu preciso de ti e em sentido contrário roubam-nos
o tempo roubam-nos o tempo meu amor tempo
o tempo para sermos barcos e atravessar paredes dentro dos quartos
 
meu amor para sermos barcos à noite
à noite a soprar docemente sobre as velas acesas
 
barcos.

Margarida Vale de Gato, in Mulher ao Mar, ed. Mariposa Azual

sábado, 17 de março de 2018

1869 (das palavras) - Foi como se um raio de luz o fizesse ver diferente.


Pedro já tinha pensado naquele assunto vezes sem conta! Por uma vez, tinha até tomado a decisão mas, depois, quando chegou a hora de verdade, hesitou e bastou esta fraqueza para abalar a sua decisão que lhe parecia tão forte.
Mas, naquela vez, o dia claro, o céu azul e sabemos lá, a luminosidade do dia, fez-lhe olhar para o barco que ali estava parado de outra forma. Dessa vez, nem teve tempo para hesitar: Entrou nele!          


João P.
Mar 2018

quarta-feira, 14 de março de 2018

1868 (Das palavras) - António


António saíra decidido de casa naquela manhã invernosa, triste, sombria, com nuvens que tinham a aparência de vir a desabar sobre a baía. Não se importou com isso! Meteu, decidido, os pés ao caminho. Iria ter mesmo aquela conversa com a M… Aquela questão que já se arrastava, não poderia terminar assim. Que diabo! Então tantos meses de trabalho, em conjunto, em torno daquele projeto fantástico não significavam nada? Admitia ter errado aqui ou ali, mas…

João P. 

terça-feira, 13 de março de 2018

1867 - (do amor) Ao meu avô

















Lembro-me de ser miúdo...
Lembro-me de ele me ter pedido para cuidar do seu jardim numa manhã de Primavera...
Lembro-me de ter sachado tudo o que era verde...
Lembro-me dele ter perdido as suas flores de primavera desse ano.
Lembro-me do seu ar desolado
E logo ele que era (aparentemente) um duro

Agora que tu não estás
(e já não estás à muito tempo)
Queria dedicar-te esta túlipa
A primeira do meu jardim.

Agora que não estás,
Cuido eu do teu jardim!
Podes estar certo, meu avô!

João P.
Março 2018
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O Jardim
Cláudia Pascoal


Eu nunca te quis menos do que tudo, sempre, meu amor
Se no céu também és feliz
Leva-me e eu cuido, sempre, ao teu redor

São as flores, o meu lugar
Agora que não estás rego eu o teu jardim
São as flores, o meu lugar
Agora que não estás rego eu o teu jardim

Eu já prometi que um dia mudo ou tento ser maior
Se do céu também és feliz
Leva-me e eu juro, sempre, pelo teu valor

São as flores, o meu lugar
Agora que não estás rego eu o teu jardim
São as flores, o meu lugar
Agora que não estás rego eu o teu jardim

Agora que não estás rego eu o teu jardim
Agora que não estás rego eu o teu jardim
Agora que não estás
Agora que não estás rego eu o teu jardim

sábado, 10 de março de 2018

1866 (Do sentido das coisas) — Naufrágios? Não, nunca tive nenhum.

— Naufrágios? Não, nunca tive nenhum.

— Naufrágios? Não, nunca tive nenhum. Mas tenho a impressão de que todas as minhas viagens naufraguei, a minha salvação escondida em [...] intervalantes [?] ...
— Sonhos vagos, luzes confusas, paisagens perplexas — eis o que me resta na alma de tanto que viajei.
Tenho a impressão de que conheci horas de todas as cores, amores de todos os sabores, ânsias de todos os tamanhos. Desmedi-me pela vida fora, e nunca me bastei nem me sonhei bastando-me.
— Preciso explicar-lhe que viajei realmente. Mas tudo me sabe a constar-me que viajei, mas não vivi. Levei de um lado para o outro, de norte para sul... de leste para oeste o cansaço de ter tido um passado, o tédio de viver o presente, e o desassossego de ter que ter um futuro. Mas tanto me esforço que fico todo no presente matando dentro de mim o passado e o futuro.
— Passeei pelas margens dos rios cujo nome me encontrei ignorando. Às mesas dos cafés de cidades visitadas descobri-me a perceber que tudo, me sabia a sonho, a vago. Cheguei a ter às vezes a dúvida se não continuava sentado à mesa da nossa casa antiga, universal e deslumbrado por sonhos! Não lhe posso afirmar que isso não aconteça, que eu não esteja lá agora ainda, que tudo isto, incluindo esta conversa consigo, não seja falso e suposto. O senhor quem é? Dá-se o facto ainda absurdo de não o poder explicar...

Bernardo Soares
s.d
.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.
  - 396.

1865 (do sentido das coisas) - Fragmento 204

Fragmento 204
Nuvens... Hoje tenho consciência do céu, pois há dias em que o não olho mas sinto, vivendo na cidade e não na natureza que a inclui. Nuvens... São elas hoje a principal realidade, e preocupam-me como se o velar do céu fosse um dos grandes perigos do meu destino. Nuvens... Passam da barra para o Castelo, de ocidente para oriente, num tumulto disperso e despido, branco às vezes, se vão esfarrapadas na vanguarda de não sei quê; meio-negro outras, se, mais lentas, tardam em ser varridas pelo vento audível; negras de um branco sujo, se, como se quisessem ficar, enegrecem mais da vinda que da sombra o que as ruas abrem de falso espaço entre as linhas fechadoras da casaria.Nuvens... Existo sem que o saiba e morrerei sem que o queira. Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstracta e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também. Nuvens... Que desassossego se sinto, que desconforto se penso, que inutilidade se quero! Nuvens... Estão passando sempre, umas muito grandes, parecendo, porque as casas não deixam ver se são menos grandes que parecem, que vão a tomar todo o céu; outras de tamanho incerto, podendo ser duas juntas ou uma que se vai partir em duas, sem sentido no ar alto contra o céu fatigado; outras ainda, pequenas, parecendo brinquedos de poderosas coisas, bolas irregulares de um jogo absurdo, só para um lado, num grande isolamento, frias.
Nuvens... Interrogo-me e desconheço-me. Nada tenho feito de útil nem farei de justificável. Tenho gasto a parte da vida que não perdi em interpretar confusamente coisa nenhuma, fazendo versos em prosa às sensações intransmissíveis com que torno meu o universo incógnito. Estou farto de mim, objectiva e subjectivamente. Estou farto de tudo, e do tudo de tudo. Nuvens... São tudo, desmanchamentos do alto, coisas hoje só elas reais entre a terra nula e o céu que não existe; farrapos indescritíveis do tédio que lhes imponho; névoa condensada em ameaças de cor ausente; algodões de rama sujos de um hospital sem paredes. Nuvens... São como eu, uma passagem desfeita entre o céu e a terra, ao sabor de um impulso invisível, trovejando ou não trovejando, alegrando brancas ou escurecendo negras, ficções do intervalo e do descaminho, longe do ruído da terra e sem ter o silêncio do céu. Nuvens... Continuam passando, continuam sempre passando, passarão sempre continuando, num enrolamento descontínuo de meadas baças, num alongamento difuso de falso céu desfeito.

Bernardo Soares

quarta-feira, 7 de março de 2018

1864 (do quotidiano)- História sem palavras


História sem palavras


"Desço a rua, entro no metropolitano, estendo à menina muda as moedas necessárias, aceito o rectangulozinho que ela me fornece em troca, desço a escada, espero, paciente, que se aproxime o olho mágico da carruagem subterrânea. Ela chega, para, parte. Lá dentro, o silêncio do mar encapelado, isto é, o de toda aquela ferragem barulhenta, som de não dizer nada. Na minha paragem saio, subo as escadas do formigueiro ou do túnel de toupeiras por onde andei. E sigo pela rua fora - outra rua -, entro numa loja. De cesto metálico na mão (estamos na era do metal) escolho caixas, latas e latinhas, sacos. Tudo aquilo é bonito, bem arranjado, atraente, higiénico, impessoal. A menina da máquina registadora recebe a nota, dá-me o troco. Ausente, abstracta. Verá sequer as caras que desfilam diante de si? Apetece-me dizer qualquer coisa, que o troco não está certo, por exemplo. Que me deu dinheiro a mais. Ou a menos. Não digo nada. As máquinas sabem o que fazem. As meninas das máquinas também.
Tenho, de repente, saudades do bilhete de não sei quantos tostões que dentro de alguns anos deixará de se pedir em eléctricos e autocarros a um funcionário com cara de poucos amigos, do merceeiro que não nos perguntará mais como estamos nós de saúde, e a família, pois claro. Saudades do tempo das palavras, às vezes insignificativas, de acordo, mas palavras.
Volto a casa com as minhas compras, higiénicas, atraentes e silenciosas. Sinto-me no futuro. Não gosto."
Diário de Lisboa, 22-7-71
Maria Judite de Carvalhoin "Este tempo"