sábado, 16 de dezembro de 2017

1858 (do amor) - Sem amor

Sem Amor




Viver sem amor
É como não ter para onde ir
Em nenhum lugar
Encontrar casa ou mundo.

É contemplar o não-acontecer
O lugar onde tudo já não é
Onde tudo se transforma
No recinto
De onde tudo se mudou.

Sem amor andamos errantes
De nós mesmos desconhecidos

Descobrimos que nunca se tem ninguém
Além de nós próprios
E nem isso se tem.

ANA HATHERLY
A Neo-Penélope


voz: Cristina Paiva

música: Nils Frahm

sonoplastia: Fernando Ladeira

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

1857 (de sentido da vida) Eu hei-de envelhecer assim

Eu hei-de envelhecer assim



Eu hei-de envelhecer assim,
a fugir à frente dó tempo, sem parar,
a correr atrás do tempo, sem conseguir?
Eu hei-de envelhecer assim,
a sonhar, por ofício, um mês de Abril
cada dia mais distante?

Eu hei-de envelhecer assim,
ao tilintar de telefones e telexes
sem· silêncio para a música e para amar?

Eu hei-de envelhecer assim,
a matar, com afinco, diariamente,
o poeta que em mim ainda não morreu?

Eu hei-de envelhecer assim,
neste enredo de julgamentos e notícias,
sem a mão estendida do meu filho pequeno?

Eu hei-de envelhecer assim,
o fumo das reuniões, as pastas, os papéis
- e a alma, ferida, na gaveta fechada?

Eu hei-de envelhecer assim,
a vida escoando-se, esquálida, nesta sala,
e o sol, como um pássaro, nas árvores da Avenida?

Eu hei-de envelhecer assim,
lá fora a luz da tarde, o riso das raparigas,
o crepitar da cidade,

e eu aqui dentro,
longe de mim e do meu centro,
longe do mar, longe do sol, longe do vento?

JOSÉ CARLOS DE VASCONCELOS
de Repórter do Coração
Ed. Asa


voz - Cristina Paiva

música - Matmos

sonoplastia - Fernando Ladeira

desvendado - Ana Eustáquio

domingo, 26 de novembro de 2017

1856 (do real) - El Maestro

El Maestro 

Con el alma en una nube 
y el cuepo como un lamento 
viene el problema del pueblo 
viene el maestro 
el cura cree que es ateo 
y el alcalde comunista 
y el cabo jefe de puesto 
piensa que es un anarquista 
le deben 36 meses 
del cacareado (mento) 
y el piensa que no es tan malo 
enseñar (toreando )un sueldo 
en el casino del pueblo 
nunca le dieron asiento 
por no andar politiqueando 
ni ser portavoz del cuento 
las buenas gente del pueblo 
han escrito al menisterio 
y dicen que no esta claro 
como piensa este maestro 
dicen que lee con los niños 
lo que escribio un tal Machado 
que anduvo por estos vagos 
antes de ser exilado 
les habla de lo inombrable 
y de otras cosa peores 
les lee libros de versos 
y no les pone orejones 
al explicar cualquier guerra 
siempre se muestra remiso 
por explicar claramente 
quien vencio y fue vencido 
nunca fue amigo de fiestas 
ni asiste a las reuniones 
de las damas postulantes esposas de los patrones 
por estas y otras razones 
al fin triunfo el buen criterio 
y al terminar el invierno 
le relevaron del puesto 
y ahora las buenas gentes 
tienen tranquilo el sueño 
porque han librado a sus hijos 
del peligro de un maestro 
con el alma en una nube 
y el cuerpo como un lamento 
se marcha,se marcha el padre del pueblo 
se marcha el maestro.

Patxi Andion 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

1855 (do que nos constitui) - Still crazy after all these years

Still Crazy After All These Years




I met my old lover
On the street last night
She seemed so glad to see me
I just smiled
And we talked about some old times
And we drank ourselves some beers
Still crazy after all these years
Still crazy after all these years

I'm not the kind of man
Who tends to socialize
I seem to lean on
Old familiar ways
And I ain't no fool for love songs
That whisper in my ears
Still crazy after all these years
Still crazy after all these years

Four in the morning
Crapped out
Yawning
Longing my life away
I'll never worry
Why should I?
It's all gonna fade

Now I sit by my window
And I watch the cars
I fear I'll do some damage
One fine day
But I would not be convicted
By a jury of my peers
Still Crazy
Still Crazy
Still Crazy after all these years
Paul Simon 

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

1854 (do que nos constitui) - Le plat pays
















Le plat pays

Avec la mer du Nord pour dernier terrain vague
Et des vagues de dunes pour arrêter les vagues
Et de vagues rochers que les marées dépassent
Et qui ont à jamais le cœur à marée basse
Avec infiniment de brumes à venir
Avec le vent de l'est écoutez-le tenir
Le plat pays qui est le mien
Avec des cathédrales pour uniques montagnes
Et de noirs clochers comme mâts de cocagne
Où des diables en pierre décrochent les nuages
Avec le fil des jours pour unique voyage
Et des chemins de pluie pour unique bonsoir
Avec le vent d'ouest écoutez-le vouloir
Le plat pays qui est le mien
Avec un ciel si bas qu'un canal s'est perdu
Avec un ciel si bas qu'il fait l'humilité
Avec un ciel si gris qu'un canal s'est pendu
Avec un ciel si gris qu'il faut lui pardonner
Avec le vent du nord qui vient s'écarteler
Avec le vent du nord écoutez-le craquer
Le plat pays qui est le mien
Avec de l'Italie qui descendrait l'Escaut
Avec Frida la Blonde quand elle devient Margot
Quand les fils de novembre nous reviennent en mai
Quand la plaine est fumante et tremble sous juillet
Quand le vent est au rire quand le vent est au blé
Quand le vent est au sud écoutez-le chanter
Le plat pays qui est le mien.

Compositores: Jacques Brel

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

1853 - (Da cidadania) A poesia não vai à missa,

A poesia não vai à missa, 
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão 
que o chama.
Animal solitário, às vezes 
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do Verão.




Eugénio de Andrade

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

1852 (Do que nos faz únicos) - Prefiro a rua do Ouro

Fui rejeitado a cotovelo pelos saldos
Vi um ourives preso ao alfinete da gravata
A caprichar em filigranas
Com uma pé-de-avestruz americana
O cheiro do café recém-moído transportou-me a outras plagas
Vi as sangrentas luvas pinares sobre as cabeças transeuntes
Ouvi dizer a um tipo que bela forma
E pensei que terás tu para lhe meter dentro?
Li num cabeçalho o passado tem os olhos do presente postos no futuro
Embarquei em sapatos enforquei-me em gravatas
Descompus Cesário Verde que atravessava a rua
sobraçando uma chave-inglesa o descuidado
Contei os buracos duma roda de gruyère na montra daquela charcutaria que tem uns rissóis sabes de camarão
Comprei um candeeiro diz que nórdico
a sua luz acompanha a mão de quem escreve e pára quando a mão para
Ouvi pedir compra-me o comboio eléctrico
E ouvi adiar se passares compro
Senti o cheiro das revistas recém-postas à venda
E pensei que bom estamos na Europa
Escorreguei os olhos pelas tabuletas dos advogados
Fisguei a abelha do trabalho que o Cesariny transformou em mosca
E também vi vou sempre ver o pelicano do frontão
Reflectido na montra faz um figuralhão
Subi ao de Santa Justa e para dominar os complexos
Deitei lá de cima um avião
Vi à noite os casais que vêm ver as montras
Gente que faz o quilo de nariz contra o vidro
Ouvi dizer a Banca é muitas vezes detestada porque pouca gente sabe o que é um Banco
Sigo as recomendações dos lojistas da artéria
Prefiro a Rua do Ouro


Alexandre O'Neill